* Alcides Domingues Leite
A pesquisa recém-publicada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre o comportamento do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre de 2009 mostra que, em relação ao trimestre anterior, o PIB brasileiro recuou 0,8%. Comparado ao primeiro trimestre de 2008, o recuo foi de 1,8%. Como, no último trimestre do ano passado, o PIB já havia recuado 3,6%, podemos dizer que a economia brasileira entrou em recessão técnica.
O termo recessão técnica é utilizado por parte dos economistas para designar uma situação de redução do PIB durante dois trimestres consecutivos. Outros economistas, sobretudo dos Estados Unidos, consideram que um país entra em recessão quando seu PIB inicia um processo de redução contínua, ainda que continue registrando resultados positivos. Assim, se o a economia do país cresceu 5% em um trimestre, 4% no trimestre seguinte, 3% no seguinte, e assim por diante, a situação do crescimento econômico do país pode ser configurada como uma recessão.
Independente do critério utilizado, podemos afirmar que o Brasil está em recessão, ou pelo menos estava até o fim de março. Esta situação é bastante negativa. Quando o país está em recessão, aumenta o desemprego, o que tende a reduzir a renda das famílias e o nível de consumo da sociedade, iniciando um círculo vicioso: menos emprego, menos renda, menos consumo, queda do crescimento econômico, menos emprego....
Felizmente a economia brasileira não entrou neste círculo vicioso, principalmente porque o consumo das famílias, após uma queda no último trimestre do ano passado, voltou a crescer no primeiro trimestre deste ano. Segundo os dados do IBGE, a queda do consumo familiar no quarto trimestre de 2008 em relação ao trimestre anterior foi de 1,8% e o aumento deste consumo no primeiro trimestre de 2009, também em relação ao trimestre anterior, foi de 0,7%.
A recuperação do consumo familiar, que responde por cerca de 60% do PIB, ajudou a reduzir a intensidade da recessão no primeiro trimestre e certamente deve ajudar o País a sair da recessão a partir do segundo semestre, com possibilidade, inclusive, de ocorrer um crescimento da economia brasileira em 2009, que deve se situar entre 0% e 1%.
Preocupante nos números apresentados pelo IBGE é a forte queda dos investimentos. A queda trimestral foi de 12,6%, a maior queda ocorrida desde o início da série nessa base de comparação, em 1996. A queda dos investimentos é explicada pelos altos níveis de estoques das indústrias no final do ano passado e pela queda das vendas, que aumentou a capacidade ociosa das empresas. Com estoques e capacidade ociosa ampliada, nenhum empresário pensa em investir.
Com a queda dos estoques e recuperação das vendas, apontadas pelos dados mais recentes, é possível que as indústrias voltem a investir na ampliação da sua capacidade instalada. No entanto, tal investimento deve ser retomado somente ao longo do segundo semestre deste ano. Sendo assim, se o consumo voltar a crescer de forma acentuada, a capacidade de oferta do setor industrial pode não acompanhar este movimento e, como consequência, a pressão inflacionária pode voltar, levando o Banco Central à necessidade de elevar as taxas de juros. Situação muito ruim para a economia brasileira, que necessita experimentar taxas de juros de um dígito por um período bastante longo para ajustar os desequilíbrios microeconômicos que tanto dificultam o desenvolvimento econômico brasileiro.
Para aumentar as taxas de investimento, é importante que o setor público acelere as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e dos demais programas estruturantes em todos os níveis de governo e também ofereça incentivos para que as empresas sigam o mesmo caminho.
* Alcides Domingues Leite é professor de economia da Trevisan Escola de Negócios e autor do livro “Brasil, a trajetória de um país forte”, da Trevisan Editora Universitária.
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